VIDA DE SANTA ANA E SÃO JOAQUIM

FONTE: MISTICA CIDADE DE DEUS - PRIMEIRO TOMO

ana e joaquim

PROPAGADA A LINHAGEM HUMANA, CRESCERAM OS CLAMORES DOS JUSTOS PELA VINDA DO MESSIAS E AUMENTARAM TAMBÉM OS PECADOS. NESTA NOITE DA ANTIGA LEI, DEUS ENVIOU AO MUNDO DOIS LUZEIROS PARA ANUNCIAREM A LEI DA GRAÇA.

164. Cresceu grandemente em número  a posteridade e linhagem de Adão.
Multiplicaram-se os justos e injustos, as súplicas dos santos pela vinda do Reden­tor e os delitos dos pecadores para a desmerecer.

O povo do Altíssimo e o tempo para o Verbo se humanar, já estavam nas últimas disposições que a divina vontade neles preparara, para a vinda do Messias.
O reino do pecado nos filhos da perdição levara sua malícia quase até ao extremo, e chegara o tempo oportuno para o remédio. Aumentara a recompensa e os méritos dos justos e os profetas e santos padres jubilosamente reconheciam, na di­vina luz, estar próxima a salvação e a presença do seu redentor. Multiplicavam os clamores pedindo a Deus o cumprimen­to das profecias e promessas feitas a seu povo.
Ante o trono real da divina mise­ricórdia representavam a longa noite (Sb 17, 20) que estava a transcorrer nas trevas do pecado, desde a criação do primeiro homem, e a cegueira das idolatrias em que se mergulhara o resto da humanidade.

O domínio do mal

165. A antiga serpente havia in­feccionado com seu hálito todo o orbe, e parecia gozar tranquilamente a posse dos mortais. Estes, desatinados da luz, quer da razão natural (Rm 1,20), quer da antiga lei que poderiam ter conhecido, em lugar de procurar a verdadeira divindade inventa­vam muitas falsas. Cada qual fabricava um deus a seu gosto, sem perceber que a confusão de tantos deuses, mesmo para a perfeição, ordem e tranquilidade, era re­pugnante.
Com estes erros, tornavam-se normais a malícia, a ignorância, e o esque­cimento do verdadeiro Deus. Desconhecia-se a mortal enfermidade e letargia que o mundo estava a sofrer, sem que os míseros doentes nem abrissem a boca para suplicar o remédio. Reinava a soberba, o número dos néscios era incontável (Eclo 1,15) e a arrogância de Lúcifer pretendia tragar as águas puras do Jordão (Jó 40, 18).
Quando, com estas injúrias, Deus era mais ofendido e menos obrigado pelos homens, e o atributo de sua justiça tinha tantas razões para aniquilar toda a criação fazendo-a voltar ao nada.

São Joaquim

166. Nesta ocasião - ao nosso modo de entender - o Altíssimo voltou sua atenção para o atributo da misericórdia e com a lei da clemência inclinou o peso de sua incompreensível equidade. Sentiu-se mais empenhado pelos clamores e servi­ços dos justos e profetas de seu povo, do que dispensado pelas ofensas e maldade de todo o resto dos pecadores.
Naquela tão densa noite da anti­ga lei, determinou dar sinais certos do dia da graça, enviando dois astros brilhantes que anunciassem a claridade já próxima do sol da justiça, Cristo nossa salvação.
Foram eles São Joaquim e Sant'Ana preparados e criados pela divina vontade, segundo a semelhança de seu coração.
São Joaquim tinha residência, fa­mília e parentes em Nazaré, povoado da Galileia, e sempre foi homem justo e santo, ilustrado com especial graça e luz do alto.
Possuia compreensão de muitos mistérios das Escrituras e dos antigos pro­fetas. Com oração contínua e fervorosa, pedia o cumprimento das promessas divi­nas, e sua fé e caridade penetravam os céus. Era homem humilíssimo e puro, de costumes santos e suma retidão, de grande peso e seriedade, de incomparável modéstia e honestidade.

Sant'Ana

167. A felicíssima Ana morava em Belém, era donzela castíssima, humilde, formosa, santa desde a infância, distinta e cheia de virtudes.
Recebeu também grandes e contínuas ilustrações do Altíssimo, e sempre exercitava a vida interior com altíssima contemplação. Ao mesmo tempo era muito ativa e laboriosa, alcançando a plenitude da perfeição das vidas ativa e contem­plativa. Possuía conhecimento das divinas Escrituras e profunda inteligência de seus ocultos mistérios. Nas virtudes infusas, fé, esperança e caridade foi incomparável.

Preparada por estes dons, orava continuamente pela vinda do Messias. Seus rogos foram tão agradáveis ao Se­nhor para apressá-la, que se pode dizer, tinha-o ferido com um de seus cabelos (Ct 4,9). Sem dúvida alguma, os merecimentos de Sant’Ana entre os santos do Antigo Testamento, tiveram lugar de destaque para apressar a encarnação do Verbo.

Oração de Sant'Ana e São Joaquim

168. Esta mulher forte também rezou fervorosamente para o Altíssimo lhe conceder, no estado de matrimónio, espo­so que a ajudasse na observância da divina lei e pudesse ser perfeita em guardar seus preceitos. Ao mesmo tempo que Sant'Ana fazia estas petições ao Senhor, ordenou sua providência que São Joaquim lhe diri­gisse igual oração.
Unidas apresentaram-se estas preces no tribunal da beatíssima Trindade, onde foram deferidas. Em seguida, por disposição divina, ficou determinado que Joaquim e Ana tomariam estado de matri­mónio e seriam pais da Mãe do mesmo Deus humanado.
Para se executar este decreto o santo anjo Gabriel foi enviado para manifestá-lo a ambos.

A Sant'Ana apareceu corporal­mente, estando ela em fervorosa oração, pedindo a vinda do Salvador do mundo e a salvação dos homens. Viu o santo prín­cipe com grande formosura e luz, produzindo-lhe esta visão alguma pertur­bação e temor, ao mesmo tempo que júbilo e iluminação interior. Prostrou-se a santa com profunda humildade para reverenciar o embaixador celeste. Este a impediu e animou, pois ela viria a ser guarda da arca do verdadeiro maná, Maria Santíssima, Mãe do Verbo eterno.

O santo Arcanjo já estava a par deste mistério quando foi enviado pelo Senhor nessa embaixada, apesar dos de­mais anjos ainda não o conhecerem, pois só a S. Gabriel foi feita essa revelação ou iluminação direta por Deus. Tampouco manifestou o anjo à Sant'Ana, por enquan­to, este grande mistério, mas pediu-lhe atenção e disse: O Altíssimo te abençoe e seja tua salvação. Sua Alteza ouviu tuas petições, e quer que perseveres nelas e supliques a vinda do Salvador. É sua von­tade que recebas Joaquim por esposo, homem de coração reto e agradável aos olhos do Senhor, e em sua companhia poderás continuar na observância de sua divina lei e serviço.
Continua tuas orações e súpli­cas, e de tua parte não faças outra diligência, que o mesmo Senhor providenciará a realização de tudo. Caminha pelas sendas retas da justiça, e tua atenção interior seja sempre para as alturas. Pede continuamen­te a vinda do Messias, e alegra-te no Senhor que é tua salvação.
Com isto desapareceu o anjo, deixando-a ilustrada em muitos mistérios da Escritura, e com o espírito renovado e fortalecido.

Revelação a São Joaquim

169. A São Joaquim apareceu e falou o Arcanjo, não corporalmente como a Sant'Ana, mas em sonhos, compreen­dendo o homem de Deus que o Anjo lhe dizia o seguinte: Joaquim, bendito sejas pela divina destra do Altíssimo, persevera em teus desejos e vive com retidão e pas­sos perfeitos. É vontade do Senhor que recebas Ana por tua esposa, pessoa aben­çoada pelo Todo-poderoso. Guarda-a e estima-a como presente do Altíssimo, e dá graças à sua Majestade por tê-la confiado a ti.
Em virtude destas divinas embai­xadas, Joaquim logo pediu Ana por esposa, e o casamento realizou-se, obedecendo ambos à divina providência. Nem um deles, porém, manifestou ao outro o
segredo do que lhes havia sucedido, até depois de alguns anos, como direi em seu lugar.

Viveram os dois santos esposos em Nazaré, procedendo e caminhando se­gundo as leis do Senhor. Com retidão e sinceridade agiam com grande perfeição, sem a menor falta e tornaram-se muito agradáveis e aceitos ao Altíssimo. Todos os anos dividiam suas rendas em três par­tes: a primeira ofereciam ao Templo de Jerusalém para o culto do Senhor: a segun­da distribuíam aos pobres; e com a terceira sustentavam-se honestamente. Deus lhes aumentava os bens temporais, porque  os distribuíam com tão generosa caridade.

Concórdia entre Joaquim e Ana

Viviam também, na mais completa paz e união sem a menor queixa ou rusga. A humilíssima Ana era em tudo submissa à vontade de Joaquim, e o ho­mem de Deus em santa competição da mesma virtude, antecipava-se para conhe­cer a vontade da esposa, confiando nela (Pr 31, 11) e não ficando decepcionado. Deste modo viveram em tão perfeita carida­de, que em toda a vida jamais discordaram, deixando um de querer o mesmo que o outro. Unidos (Mt 18, 20) em nome do Senhor, Deus e seu santo temor permane­ciam com eles. Obedeceu e cumpriu S. Joaquim o mandato do anjo na estima e guarda de sua esposa.

Santidade de Ana

Preveniu o Senhor com pre­ciosas bênçãos (SI 20, 4) a santa matrona Ana. Comunicou-lhe altíssimos dons de graça e ciência infusa para dispô-la à feli­cidade que a esperava: tornar-se mãe da que seria do mesmo Senhor. Como as obras do Altíssimo são perfeitas e acabadas, foi lógico que a fizesse digna mãe da criatura mais pura na santidade, inferior só a Deus e superior a toda a criação.

Provação de Joaquim e Ana

Estes santos passaram ca­sados vinte anos sem terem filhos, coisa que, naquela época e povo, considerava-se grande infelicidade e desgraça. Por esse motivo, sofreram muitos opróbrios e des­prezos dos vizinhos e conhecidos, pois os que não tinham filhos eram reputados por excluídos de participarem na vinda do Messias esperado.

O Altíssimo, porém, querendo prová-los e dispô-los por meio desta humi­lhação para a graça que lhes reservava, também lhes deu paciênciae conformidade para que semeassem, com lágrimas (SI 125,5) e orações, o ditoso fruto que depois haveriam de colher.
Fizeram ardentes súplicas do fun­do do coração, tendo para isto especial ordem do alto. Prometeram ao Senhor, por voto, que se tivessem filhos, consagrariam ao seu serviço no templo, o fruto que de sua bênção recebessem.

Promessa de Joaquim e Ana

Esta promessa foi especial inspiração do Espírito Santo. Foi o meio para que Aquela que seria morada de seu Unigénito Filho, ainda antes de existir fos­se oferecida e entregue por seus pais ao mesmo Senhor.

Se antes de conhecê-la e convi­ver com ela, não se tivessem obrigado por voto a oferecê-la ao Templo, vendo-a de­pois tão doce e aprazível criatura, não o poderiam fazer com tanta prontidão, pelo veemente amor que lhe teriam. Ao nosso modo de entender, esta promessa apazi­guava os ciúmes do Senhor vendo sua Mãe Santíssima aos cuidados de outros, como também entretinha seu amor durante a espera de seu crescimento.

 

São Joaquim humilhado

Havendo perseverado um ano inteiro nessas fervorosas petições, desde que o Senhor assim lhe ordenara, aconteceu ir São Joaquim, por divina disosição, ao templo de Jerusalém oferecer orações e sacrifícios pela vinda do Messi­as e pelo fruto que desejava. Chegando com outros conterrâneos para oferecer os costumeiros dons e oferendas na presença do sumo sacerdote, outro inferior chama­do Isacar, repreendeu asperamente o venerável ancião Joaquim, por vir fazer ofertas com os demais, sendo infecundo. Disse-lhe entre outras coisas: - Joaquim, por que vens fazer ofertas, sendo homem inútil? Afasta-te dos demais e não irrites a Deus com tuas oferendas e sacrifícios que não são gratos a seus olhos.

O santo homem, envergonhado e confuso, com humilde e amoroso senti­mento, voltou-se para o Senhor e lhe disse: - Altíssimo Deus eterno, por vossa ordem e vontade vim ao templo, mas quem está em vosso lugar me despreza. Meus pecados são a causa desta ignomínia! Aceito-acomo vossa vontade, não desprezeis a obra de vossas mãos (SI 137, 8).
Partiu Joaquim do templo, con­tristado, porém, sereno e em paz, para uma casa de campo ou granja que possuía. Ali, em solidão, durante alguns dias, clamou ao Senhor e fez esta oração:

 

Oração de São Joaquim

175. - Altíssimo Deus eterno, de quem depende a existência e a salvação da linhagem humana: prostrado ante vossa real presença, vos suplico digne-se vossa infinita bondade olhar a aflição de minha alma, e ouvir minhas petições e as de vossa serva Ana. A vossos olhos são conheci­dos todos os nossos desejos (SI 37, 10) e se eu não mereço ser ouvido, não desprezeis minha humilde esposa. Santo Deus de Abraão, Isaac e Jacó, nossos antigos pais, não afasteis vossa piedade de nós. Sois pai, não permitais que eu seja dos réprobos e excluído em minhas oferendas como inútil, por não me dardesfilhos.

Lembrai-vos, Senhor, dos sacri­fícios (Dt 9, 27) e oblações de vossos servos e profetas, meus antigos pais, e tende presentes suas obras, gratas a vos­sos divinos olhos. Já que me ordenais, Senhor meu, pedir-vos com confiança como a poderoso e rico em misericórdias, concedei-me o que por Vós desejo e peço. Pedindo, faço vossa santa vontade que deseja me conceder o que peço, e se mi­nhas culpas impedem vossas misericórdias, afastai de mim o que vos desagrada.

Poderoso sois, Senhor Deus de Israel (Est 13, 9) e tudo quanto quereis podeis fazer, sem que nada vos impeça. Cheguem a vossos ouvidos minhas súpli­cas, porque se sou pobre e pequeno, Vós sois o Rei dos reis o Senhor dos senhores e todo poderoso. A vossos filhos e servos enchestes, Senhor, de dons e bênçãos em suas gerações. A mim me ensinais a desejar e esperar de vossa liberalidade o que fizestes a meus irmãos. Se for vosso bene­plácito conceder meu pedido, oferecerei e consagrarei ao vosso serviço em vosso santo templo nossa descendência, fruto recebido de vossa mão. A vossa vontade entreguei minha mente e coração e sempre desejei afastar meus olhos da vaidade. Fazei de mim o que for de vosso agrado e alegrai, Senhor, nosso espírito com o cum­primento de nossa esperança. Olhai do vosso trono ao humilde pó, e levantai-o para que vos glorifique e adore, e em tudo cumpra-se vossa vontade e não a minha.

Oração de Sant’Ana

176. São Joaquim fez esta petição em seu retiro. Neste ínterim o santo anjo declarou aSanta Ana que seria agradável orar a Deus e pedir-lhe filhos, com o santo afeto e intenção com que os desejava.
Conhecendo a santa matrona ser essa a divina vontade, como também a de seu esposo Joaquim, com humilde submis­são e confiança, na presença do Senhor, orou conforme lhe era ordenado, e disse:

-Deus Altíssimo, Senhor meu, Criador e conservador de todas as coisas, a quem minha alma reverencia e adora como a Deus verdadeiro, infinito, santo e eterno: pros­trada em vossa real presença falarei, ainda que seja pó e cinza (Gn 18, 27), expondo minha necessidade e aflição.

- Senhor Deus incriado, tornai-nos dignos de vossa bênção, dando-nos fruto abençoado para oferecer a vosso serviço em vosso templo (lRs 1). Lembrai-Vos Senhor meu, que Ana, vossa serva, mãe de Samuel, era estéril e com vossa liberal misericórdia alcançou o cumprimen­to de seus desejos. Sinto em meu coração uma força que me anima a pedir-vos façais comigo esta misericórdia. Ouvi, pois, dulcíssimo Senhor e dono meu, minha sú­plica e lembrai-vos dos serviços, oferendas e sacrifícios de meus antigos pais e os favores que lhes concedeu o poderoso braço de vossa onipotência.

- Quisera, Senhor, oferecer oblação agradável e aceitável a vossos olhos, porém, a maior que posso, é minha alma com as potências e sentidos que me destes e todo o meu ser. Se, olhando-me do vosso real trono, me concederdes descen­dência, desde já a consagro e ofereço para vos servir no templo. Senhor Deus de Israel, se for de vossa vontade e agrado olhar esta pobre e vil criatura e consolar vosso servo Joaquim, concedei-nos esta graça e em tudo cumpra-se vossa santa e eterna vontade.

177. Foram estas as súplicas fei­tas pelos santos Joaquim e Ana. Da inteligência que delas tive e da santidade incomparável destes felizes pais, não pos­so, por minha ignorância e incapacidade, dizer quanto sinto e conheço. É me impos­sível referir tudo, nem é necessário, pois o que fica dito é suficiente para meu escopo. Para se ter altos conceitos destes Santos, basta medi-los pelos altíssimos fins e mis­térios para os quais foram escolhidos por Deus: serem avós imediatos de Cristo Se­nhor nosso e pais de sua Mãe Santíssima.

 

Fonte: Mística Cidade de Deus, Primeiro livro, Capítulo 12 - Soror Maria de Agreda - Espanha Século XVII

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